quarta-feira, 17 de maio de 2017

A incerteza das certezas



Rogério Parentoni Martins
 



Caminhava por uma praça em Belo Horizonte, quando escutei de um garoto cerca de 10 anos: “mãe, é impressão minha ou o mato cresceu?” O mato a que ele se referia é um gramado que circunda parte do perímetro da praça. A mãe respondeu: "cresceu sim, meu filho, você tem razão". A despeito de ser trivial, o episódio desse curto diálogo que, afortunadamente, pude ouvir levou-me a refletir sobre a incerteza das certezas. O garoto procedeu com cautela ao duvidar que o fato de o mato ter crescido poderia ser apenas uma impressão sua; expressou honestamente sua dúvida sobre se realmente o mato haveria crescido após sua última estada na praça. Talvez o garoto ignore, mas a dúvida e curiosidade, demonstradas por meio de sua cautelosa pergunta, são os principais "drivers" do conhecimento científico. Por isso, ocorreu-me estar diante de um potencial cientista. Ocorreu-me também que a "certeza" da mãe, árbitro com autoridade naquele momento crítico de dúvida, poderia ser equivocada por dois motivos: i) a certeza da afirmação materna poderia eliminar a possibilidade de que o garoto pudesse continuar a refletir sobre a dúvida, desvanecendo rapidamente sua curiosidade, e ii) poderia ser o início de acomodação sobre o pensar sobre eventos, triviais ou não, e estimular submissão à opinião de quem ele julgar superior a si em vivência e conhecimento. Ambos os motivos podem alimentar mitos, resultados de observações superficiais sobre a ocorrência de eventos ou fenômenos complexos, repetidos à exaustão. Quantas vezes repeti sem duvidar sequer um centímetro da certeza do que me disseram professores ou autoridades. Felizmente, não percebi tarde demais o meu equívoco. Tornei-me cauteloso como o garoto cuja afirmação estimulou essa reflexão. Espero que o garoto continue a duvidar de suas próprias opiniões e das opiniões de outros; se optar em tornar-se pesquisador possa avançar mais cedo do que estou a avançar, por ter percebido mais tarde esse aspecto importante sobre a origem do conhecimento. Finalmente, espero que garotos com tal potencialidade não sejam massacrados em sala de aula, simplesmente por duvidar e expressar suas dúvidas, transformado-se em um adulto submisso à 'veracidade' das "incertas certezas".