quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Pau de Jumento

Rogério Parentoni Martins


Maria fumaça bufava como toda quarta feira seis da tarde. Ela quinze, eu 17. Ela dentro, eu fora. Nunca deveria ter ido à Estação de Ferro Leopoldina, em Ponte Nova, Minas Gerais. Ano não importa, perdido tá no passado, envolto em neblina do rio Piranga e na fumaça da chaminé do trem de ferro abastecido à lenha. Nunca devia ter ido à despedida. Adolescente não despede. Chateia, chora, fica com raiva, mas pega logo outro rumo.
                Os homens que viajam de maria fumaça usam sobretudo branco, nem tanto, cinza de fumaça, de comprimento na metade das canelas. As fagulhas da chaminé da máquina queimariam a roupa domingueira e atrapalharia a triunfal chegada ao Rio de Janeiro. Capital na época, homem tinha que ser de terno e mulher-esposa de costume sóbrio com barra na panturrilha, sapato social salto Luís quinze; às vezes o chapéu feminino que realçava o rosto era bem discreto; em alguns aqueles penachos no cucuruto. Nada de decote ou saia no joelho. Isso era coisa das mulheres de vida fácil, que os maridos comiam às quintas, na zona, religiosamente.
                Sim, o padre sabia, mas não pregava sermão nos abastados da cidade; para eles apenas: perderia o dízimo, os leitões a pururuca, os lombos assados, o arroz de forno com queijo ralado e petipoá. Pobre ouvia cada uma!... Muito tempo mais tarde arrependi de não ter virado padre de paróquia do interior. Desses lascivos e glutões que não deixavam nenhuma beata pro bispo, só as feias, vesgas de ancas curtas e pernas tortas. Se chegava no confessionário, era "ripa na chulipa!". Fecha os olhos, minha filha, fique de quatro como ovelhinha, abaixe a calcinha: o Senhor vai te penetrar. Já com o membro inteiramente aconchegado, as mulheres suspiravam: Glória ao Senhor, o Senhor é meu pastor. O cajado do pastor pastoreando as ovelhinhas... Diziam os padres apenas desse modo ser possível reforçar a fé das mulheres no Senhor e evitar que pecassem. Pau de padre era benzido, pensavam as beatas. Eram conhecidos no interior de Minas os filhos de padres, meninos ou meninas sérias de terço e bíblia na mão. Os meninos machos treinando prá padre; as meninas fêmeas prá beatas ou freira. Puta num entrava na igreja matriz, ouvia missa de fora. Os padres gays pedófilos chamavam os meninos gordinhos de bunda grande: cavalim, cavalim prá ganha santim. A única preocupação dos padres era Deus. Você acreditaria que todo padre acredita em Deus? Inocente! Deus é útil, apenas. Prá que fui ler "Velhice do Padre Eterno" de Guerra Junqueiro, prá quê, gente? Cismei com padre depois da leitura. Quando mineiro cisma, tem jeito não: empaca igual mula arisca quando vê bicicleta. Mas sempre é tinhoso, cigarrim de palha, cuspe de lado e sorrisim desses curtim para não dar muito cabimento. "Minino num arreganha as canjica prusotro", ouvia sempre.
                Hoje me lembro apenas do aceno de luva branca e da coluna de fumaça dobrada pelo vento. Aceno defumado pensei na época e me lembrei das linguiças penduradas sobre o fogão de lenha. Leva quinze dias prá defumar. Queijo prá curar leva mais. Tem que tampar com pano de prato: moscas aos magotes. Moscas mineiras não dispensam um queijim meia cura. Para pão de queijo o dito tem que tá bem curado, bom prá ralar Também, onde já se viu chiqueiro perto da cozinha com janela sempre aberta prá fumaça sair. Por causa do chiqueiro, vivia de bicho de pé que mãe tirava com agulha de costura.
                Mal o defumado sumiu na primeira curva, já pensava na zona. Dezessete no quengo é hormônio prá mais de litro! Se bubiar, sai pelo ouvido, igual jato dágua comprimido ou pinto de minino mijando. Aqueles pinto com bico de lamparina, que parece uma tromba mal crescida de filhote de elefante anão que dá no Siri Lanka.
                Esse trem de misturar assunto com conversa mole faz escrita render. Todo mundo tem hora pra conversa mole. Na venda então, final de tarde, junta sempre uns dez. Qual cidade do interior num tem pinguço e mintiroso? Cachaça de cabeça de alambique, daquela forte, que queima da boca ao cú. Cú tem que ter assento, já pensou cú sem assento? Cú sem acento é pescoço em francês. Já vi mãe xingando minino porque falou cú: "minino, isso é bobagera; se falar de novo, tapa na boca; deixa eu pegar!".
                Tem escritor que fala que mistura de assunto é técnica. Nunca tive, acho enrolação. Vai ver que são sinônimos. Não esqueço Rafael Bicanoa, prof. de português da Escola de Comércio, metido a latinista, mas era mesmo latrinista. Repitam alunos: "sin, prefixo= junto; ant, separado": se fosse em inglês sin era pecado e ant formiga. Anatomia, separar perna da cintura pélvica e braço da cintura escapular. Tem que desarticular que a peça sai inteirinha. Um minino mei bobão, perguntou: "professor, sintopéia é muita perna junta? Se rancá as pernas dela, ela rola?" É cada minino bobo no interior. Bobo só nas horas vagas. O senhor já ouviu falar sobre quem se faz de bobo prá viver? Mineiro é especialista na arte, principalmente quando faz negucim. Faz de bobo, mas os olhos tão correndo avaliando o produto. Tem negociação que dura mais de mês. Um ganha, mas ganha pouco. O trem é bem isprimido.
                Ela nunca me escreveu. Quando a fumaça passou já não lembrava mais da luva branca. Tava era numa meteção na zona, danada. As moças prá casar só deixavam botar nas coxas e pegar nos peitim, peitetes, peitos e peitões. Peito de todo jeito, prá todo gosto. Mas as que deixavam tinham quase certeza de ter fisgado o mão boba com anzol de surubim. Lembro que um dia correu a cidade: fulano só tinha posto nas coxas. Quem acreditou, nove meses depois ficou encabulado com o fulanim nascido. Família dava explicação, para se safar: só pode ter escorrido das coxas pra lá; se chegar na porta os rabichudim ligeiro nada até encontrar o pontim, parecido com um ovim miúdim, entrar e galá ele. Ou que quando a moça que deixou se lavava no banho ajudava empurrar os rabichudim prá porta. Garantiam que sabão num matava eles e que um médico disse: o espermatozóide, nome do rabichudim, vive 24 horas. Mas eu me perguntava: vive um dia aonde? Se a porra secar, ele num rompe, fica igual roda de carroça atolada. Tirante gêmeos, cara dum fuçim do outro, é só um mais ligerim que consegue entrar, deixar o rabim prá fora e gala o pontim. Pode ser ligeiro que for, na porra seca encrava.
                Dois carroceiros que moravam no pito, Joaquim Zoeira e Sô João mei pé ou joão pepé. O primeiro, do morro já dava prá ouvir a voz dele. Sô joão pépé, era mais quetim. Só se ouvia o rangido das rodas sem graxa no eixo rodando no paralelepípedo. Eles carregavam de tudo, poste, moirão de cerca, geladeira, máquina de costura, cama, guarda roupa, areia, tijolo, saco de açúcar, feijão, arroz... Num enjeitavam nada. Tinha pena quando o chicote lanhava os quarto do burro. O peso era muito: o bicho mastigava esforço dos grande prá puxar aquela pesaria. Dava até escuma nos canto dos beiço. Chicote no lombo: "vamo burro, vamo". As vezes, no meio do morro, tinha de parar e calçar as rodas da carroça prá esperar o burro descansar. Aí ele ganhava água e comia um bornal de capim fresco. Enquanto isso, Zoeira, ficava gritando: "aí zé da véia, já vai, né? Ô boca murcha sinuqueiro, ô caminhão de osso! Desse só via costela, carne québom nenhuma. Naquele tempo podia esperar burro descansar. Naquele tempo ninguém conhecia pressa. O dia demorava um mês prá passar quando estava em aula; nas férias era rapidim. No grupo escolar tinha Eva, servente, sorridente. Eu cantava quando ela passava: "Eva me leva, pro paraíso afora, eu tenho muita roupa, mas jogo a roupa fora". Eva ria:" ô minino danado!"

                Uma vez, os minino descobriram num pasto perto de minha casa, uma égua dadeira que só! Era só bater de leve na anca dela que encostava no barranco. Formava fila grande. Todo mundo queria ser o primeiro; o último tava lascado naquela melação. O hábito de comer animais no interior era disseminado: galinha, porca, cabra, égua. Se tivesse tatu, capivara, cutia os meninos traçava. Só tinha que ser mulher fêmea. Uma um sujeito, apesar de saber, tava tão de urgência que meteu num jumento macho e o cú travou. O jumento começou andar e o sujeito sem jeito de separar indo atrás. Só depois de passar pela igreja e ouvir o xingo do padre, o jumento relaxou. O sujeito ficou um arraso. Inchado, deu até bolha d'agua. Diziam que bosta de jumento macho era venenosa. O apelido veio logo: pau de jumento. Uns riam quando ele passava e diziam: "se o jumento resolver cobrar, cê tá nágua! Vai ver o que é bom prá tosse!" Pelo bem pelo mal, evitava passar perto de jumento macho ou fêmea, podia confundir: jumento mulher ou home é tudo igual: ele num podia bubiá. Vai que o jumento lembrava dele e começasse a zurrar. Pior se o trem dele começá a crescer e ficá pendurado que nem linguiça no defumador. Aí o povo ia deitar e rolá nele. Cidade do interior é assim: gozação corre rua!

Dois homens em dois atos

Rogério Parentoni Martins


Clarindo que poderia ter sido Diógenes.

Jurisprudêncio nasceu filho de advogado fracassado. O pai colou grau em uma dessas faculdades de esquina, com lanchonete em baixo, farmácia ao lado e salas de aulas enfileiradas em corredor iniciando-se ao fim de estreita escada. Qualquer rábula interiorano o superava em conhecimento. Seus professores não escondiam a incompetência, oculta nas tiradas em latim, provavelmente decoradas do Almanaque Capivarol, que nos tempos de hoje ainda impressionam a alguns: Alea jacta est, fiat lux, ex-nihilo, mutatis mutandis, Libertas quae sera tamen. Essa a mais proferida, referente à bandeira Minas Gerais, seu estado mater. Embora achasse sonoro, usava raramente ex-libris; nunca lhe entendera o significado. Com as decoradas latinices no colete, partiu para o pugilato laboral apenas delas munido. Se foi exitoso em único processo, nunca se soube, tal era sua infrequência no fórum. Aparecia uma ou duas vezes por ano, sempre alerta, para gastar seu latim com os mesmos "piedosos" que lhe davam alguma atenção e na roda do cafezinho zombavam dele. Dr. Clarindo fazia questão do Dr., mantido em alguns cartões de visita encardidos, cheirando a naftalina, que nunca saíram do bolso do paletó. Não dispensava o paletó, apesar de desfigurado, bolsos frouxos e cotovelos puídos. A indumentária resistia precariamente desde a formatura, quando o recebeu de um tio, que ainda acreditava em seu sucesso, e dissera tê-lo usado apenas única vez. Foi o único paletó em toda vida do Dr. Clarindo; escovado, com antiga escova de sapato já meio calva, para retirar quinzenalmente a poeira acumulada nas percorridas léguas semanais. Tentou vender caixões sob medida de lar em lar; todas infrutíferas tentativas. Como era época pré-Google, colocava o sustento à mesa, oferecendo de porta em porta a Enciclopédia Barsa e bilhetes da loteria mineira. Gostava repetir que a "mineira só dá para mineiros", sem maldade alguma, sequer quando a substituíram por "mineira só sai pra mineiro". Alguns que o recebiam à porta, se impressionavam com a erudição demonstrada ao citar as expressões do Lácio, herdadas dos luminares do direito civil de sua faculdade. Não era daqueles com vocação nata para corrupto; julgava-se imaculado, o homem mais honesto de todos os tempos; o que Diógenes procurava com a lanterna à óleo de baleia. Soubesse disso, certamente trocaria de nome ou adicionaria o do filósofo ao seu: Dr. Clarindo Diógenes Pires. De fato era um homem simplório, ingênuo, acreditava nos políticos, características geneticamente herdadas da mãe e que Jurisprudêncio também recebeu. Sonhava Dr. Clarindo com viagem a Paris, desde o dia em que folheava a Barsa, que nunca de fato lera, e soubera que Paris era a Cidade Luz. Não sabia o que significava, mas a imaginação o levou a cenários absurdos em que misturava idade média com o século das luzes, que alguma vez ouvira mencionar em uma das aulas de direito, talvez de filosofia. Mesmo que soubesse seria impossível alguém constatá-lo: se perguntado, responderia apenas entoando as expressões latinas comezinhas. Apesar da indigência intelectual e vida quase miserável, Dr. Clarindo era otimista tão irrefreável como Cândido de Voltaire. Acordava sempre com a mesma disposição proferindo: sol lucet! Até mesmo em dias nublados: sol semper lucet! Inesperada sensibilidade poética, foi-lhe desvendado por Jurisprudêncio após a morte do pai: vários delicados poemas, escondidos por vergonha de seu português, que de alguma forma suspeitava limitado. Se soubesse latim, os escreveria nessa língua decretada morta. Jurisprudêncio orgulhava-se do pai; organizou os poemas e os publicou em modesta brochura, tiragem de apenas 20 exemplares, distribuídos na praça da Liberdade em uma manhã de sol. Apenas dois exemplares sobreviveram: o do filho e aquele que chegou-me à mão por meio de um amigo. O título deu-lhe singelamente o filho: Gotas poéticas. De todos, o poema que mais me tocou transcrevo, confirmando a autoria do poeta, cujo pseudônimo era Cícero Pires:

Ventos recortam no céu
Nuvens de versos rurais.
Carneirinhos pulam sonhos,
Corujas espiam
Estrela fulgurante.
Como pode ser tão só
Um céu tão brilhante?

A morte e sepultamento foram discretos como foram seus poemas. No velório, um amigo de Jurisprudêncio, auxiliar de almoxarife da prefeitura, tão ou mais discreto que o falecido. Ambos em silêncio, apenas velando o corpo sem alma. No sepultamento houve maior presença. Após cobrir o caixão de terra, o coveiro, respeitosamente, parou alguns minutos, de olhos cerrados e cabeça inclinada em direção ao túmulo. Não que soubesse algo sobre o poeta, mas o fazia em todos sepultamentos, quando ficava só, antes de fechar os portões do cemitério, diga-se independentemente da posição social do falecido. Talvez pensasse: "todos os mortos ficam na mesma posição" Assim, Dr. Clarindo cairia no esquecimento, mas não como Cícero Pires, gravado nas duas cópias sobreviventes da brochuras poéticas que sobreviveram.

Jurisprudêncio Pires, auxiliar de escritório


Jurisprudêncio era o pai outra vez. Pensara em cursar direito, mas terminou o ginásio e obteve emprego de auxiliar de escritório em uma firma de atacado. Essa firma vendia de tudo: penicos, amarrados de ferradura, barricas de soda cáustica, cueca samba canção, velas, latas de biscoito Confiança, rapaduras, resmas de papéis para escritório, celofane, cadernos escolares com ursinho na capa, fósforos Fiat Lux e palitos Gina. Desconhecia Jurisprudêncio as evidências fósseis da existência de palitos utilizados pelos Neandertais na higienização dos dentes. Lembro-me apenas desses itens de uma imensa lista, a julgar pelo enorme galpão, onde era empilhada a mercadoria. Rigorosamente, às sete, Jurisprudêncio estava na porta da firma à espera que abrisse. Cumprimentava quem encontrasse com inaudível bom dia e se dirigia à pequena mesa, cheia de notas fiscais, cadernos de lançamento de despesas, vendas e impressos avulsos para depósito do dinheiro ou cheques. Só saia no horário de serviço para satisfazer necessidade fisiológica premente, ou quando a cigarra anunciava horário de almoço e fim de expediente. Viveu em edícula alugada pela dona que morava na casa principal. A senhoria nunca ouviu barulho que de lá viesse, desde o primeiro dia de aluguel até o passamento de Jurisprudêncio, em uma tarde qualquer, após 30 anos de aluguéis sempre honrados no dia 5 de cada mês.