Em poucas palavras eu vou dizer
Com nó na garganta tudo que sinto
Errei feio, passei foi longe e eu não minto
Ao te dizer palavras duras, transbordadas de vícios.
Palavras ferem quando mal usadas
Elas machucam, perfuram a sensível alma
E o perdão, ah! nessa hora ele se cala...
Vai pr'um fosso profundo
Que deságua num soturno mundo
Onde reina a tristeza e solidão.
Mesmo antes do noturno poço
Eu mesmo fiz extremo alvoroço
Pensando usar da tal razão...
Mais que razão é essa, que expulsa quem se ama?
Que argumentos quentes! Sem aquecer a minha cama...
Flexei errado, tiro certeiro na culatra
Dardo fora do alvo, empreitada fracassada.
Esqueço as vezes que perdi
Que me feri falando sem olhar pra mim
Que morri cem vezes a pensar em ti.
Acomodei meus sonhos numa casinha
E dela fiz, pequenininha, um castelo real.
Um lugar onde só eu, num "belo" plano virtual,
Pousasse pleno e soberano no meu quintal mais que ideal.
E agora sem rodeios e nem tom de despedida,
Essa história chega, enfim, ao seu ponto final.
Adeus, vivamos e brindemos à vida.
sexta-feira, 23 de janeiro de 2015
quinta-feira, 17 de julho de 2014
Dragas no rio Parnaíba: uma revisitação.
Ensaio
Francimário da Silva Feitosa
Programa de
Pós-Graduação em Ecologia e Recursos Naturais, Laboratório de Ecologia de Rios
do Semiárido, Universidade Federal do Ceará – UFC, CEP 60455-970, Fortaleza,
CE, Brasil. Email: francimario.feitosa@gmail.com
Em virtude do número crescente de
dragas que literalmente sugam os sedimentos e a água da calha principal do rio
Parnaíba, resolvi escrever uma pequena nota sobre o tema (Feitosa, 2010) onde
me posicionava contra a utilização de tais equipamentos sem o devido
conhecimento a cerca da dinâmica natural daquele rio. Entretanto, o texto
revela uma espécie de equilíbrio entre a utilização das dragas e um possível
benefício delas em virtude do assoreamento observado no vale do rio Parnaíba.
Faz-se necessário aqui ressaltar que
as dragas são utilizadas como equipamentos para o desassoreamento de canais,
como explicado no texto acima citado. Entretanto, a principal utilização destas
máquinas no Parnaíba é necessariamente em virtude da exploração de areia para
construção civil. E a pergunta que não quer calar é quanto à legalização das
dragas.
Entendo que todos os elementos que compõem a dinâmica natural do rio
Parnaíba devem ser levados em consideração. A saber: a dinâmica da fauna
aquática (peixes, crustáceos, insetos) e da sedimentação natural (quanto
sedimento naturalmente é carreado pelo rio) (Esteves, 1998).
Entretanto, poucos aspectos contemplam sistemas originalmente naturais,
em virtude da alteração do ambiente de origem antrópica, por exemplo, o sistema
de barramento para geração de energia elétrica entre o alto e o médio curso e
as grandes áreas de monocultura de soja no alto curso do rio.
Componentes
naturais: fauna aquática e sedimentos carreados
Um dos componentes principais na dinâmica do rio Parnaíba (e dos demais)
é o meio biótico, ou seja, todas as espécies que evoluiram naquele local e
fazem com o ambiente uma espécie de feed-back,
alterando sensivelmente seus hábitats de modo que se consiga um ajuste
favorável (ou não). O conhecimento sobre a fauna do rio Parnaíba é considerado
insipiente, e portanto, as interações entre elas é um mero esboço do que ocorre
em outras tantas bacias pelo mundo afora.
No entanto, sabe-se por exemplo, que a biologia de muitas espécies
depende de outras (Townsend et al.,
2010), que necessariamente devem estar naquele ambiente. Interações como a
predação e competição moldam as principais características do fator biótico,
que pode ser “visualizado” em termos de estrutura das assembléias.
Insetos
Do ponto de vista quantitativo, esse grupo pode ser um dos mais
importantes não só na calha do Parnaíba, como também em toda a sua bacia. Uma
significante parte dos insetos depende do ambiente aquático para completar o
seu ciclo de vida e, por isso, boa parte das larvas são encontradas nesse
ambiente. Isso significa dizer que as interações entre os insetos e os demais
grupos é histórica e que há uma forte ligação evolutiva entre ambos. Subgrupos
como o dos dípteros podem ser diretamente afetados pela sucção das mangueiras
das dragas, sendo removidos de microhábitats específicos e interrompendo seu
ciclo natural.
Crustáceos
O grupo dos crustáceos do rio Parnaíba é composto por pequenos camarões
e caranguejos. É um grupo pequeno em termos quantitativos de espécies, mas
importante em termos de biomassa e funciona como fonte de energia para outros
grupos (principalmente peixes), além de parte ser detritívora (alguns
caranguejos). O fato de haver uma série de impactos inerentes à exploração de
areia pode alterar significativamente o hábitat da grande maioria dos
crustáceos, embora alguns camarões tenham microhábitats específicos, como
cascalho, embaixo de pedras e frestas entre rochas. Outro grande problema seria
a alteração na qualidade da água (em termos de sedimentos carreados), pois os
camarões são essencialmente filtradores e dependem de uma certa qualidade no
ambiente para aquisição de seus recursos alimentares.
Peixes
Apesar de não ser bem estudado, esse grupo é relativamente conhecido,
embora a sua biologia careça de muito aprofundamento. A inferência do
funcionamento da biologia de diversas espécies é ainda muito baseada em estudos
comparativos e muito raramente existe casos específicos investigados no rio
Parnaíba.
Os peixes são relativamente bem diversos (riqueza de espécies) e a maior
parte muda ontogeneticamente seus hábitos alimentares, passando essencialmente
de plantófagos para piscívoros, herbívoros ou omnívoros. Outros, como as raias
são detritívoras e por isso possuem o hábito de se enterrar no sedimento mole e
até mesmo na areia de granulação mais fina.
O impacto causado pela sucção da mangueira das dragas também é
avassalador para os peixes maiores que habitam o canal mais profundo do rio,
pois retira o sedimento natural (e antrópico), alterando o hábitat diversas
vezes num intervado de tempo muito curto.
Impactos causados
pelas alterações antrópicas
O primeiro grande impacto observado está diretamente ligado à barragem
de Boa Esperança, no município de Guadalupe-PI. Até agora é o único barramento
(estão previstas pelo menos mais três) e tem como finalidade gerar energia
elétrica. O fato de todos os dias haver um controle da vazão de água faz com
que o nível do rio flutue constantemente, não havendo limites confiáveis para
hábitats específicos de alguns organismos que dependem da margem do rio para
forrageamento ou refúgio. Por segurança, as vezes, os operadores da
hidroelétrica liberam um volume muito grande de água, fazendo o nível do rio
subir assustadoramente à jusante e em outras vezes ocorre o contrário.
Entretanto, diariamente os níveis flutuam e por isso alguns organismos mais
sensíveis podem estar vulneráveis à essa oscilação.
O segundo impacto que deve ser atentado nesse contexto são os grandes
empreendimentos agrícolas (monoculturas de soja, principalmente) que abrem
grandes áreas de vegetação nativa para plantio. Ocorre que se toda a vegetação
de uma área for retirada para esse fim, não haverá elementos que “segurem” o
sedimento. A partir daí, na primeira chuva muito sedimento será deslocado para
os pequenos riachos e rios, que consequentemente será levado para a calha
principal do Parnaíba.
Um exemplo gritante para isso é o que ocorre na famosa Av. Maranhão, nas
localidades da beira-rio do município de Teresina-PI. Grandes bancos de areia
estão acondicionados naquele local, aumentando o nível da água no período
chuvoso. Provavelmente, essa acumulação de sedimentos se dá por conta do relevo
dessa região e como ela pertence ao curso médio do Parnaíba, não há tanta
declividade para escoamento da água e dos sedimentos carreados por ela.
Aqui, talvez, seja necessária uma intervensão por meio de dragas, ou até
mesmo de outro maquinário que dê conta de retirar toda aquela quantidade de
sedimento e reestabelecer a vazão normal do curso. Mesmo em Floriano-PI,
município alvo e objeto desse ensaio, alguns locais já se encontram bastante
assoreados, com a profundidade do rio significativamente menor que a normal, de
tempos atrás. Também, uma intervensão por dragagem poderia ser efetivada,
entretanto com finalidade única e exclusiva de recuperar os trechos em questão.
Conclusões
As dragas no rio Parnaíba funcionam somente para extrações de areia que
são liberadas por órgãos competentes da área ambiental. Entretanto, parece não
haver critérios para essa atividade e a utilização deveria ser cuidadosamente planejada para que não hajam
prejuízos ao ecossistema em questão, muito menos aos seus componentes bióticos.
O conhecimento a
cerca da dinâmica do fator abiótico tem igual peso quando comparado com o
biótico. Muito pouco se sabe e por isso não há mecanismos legais para o
usufruto dos recursos sem um prévio conhecimento dos seus processos
regenerativos.
Referências
Esteves, F.A. 1998.
Fundamentos de limnologia. Ed. Interciência, 2ª Edição, Rio de Janeiro, RJ.
Feitosa, F.S. 2010.
Dragas no rio Parnaíba. Disponível em: http://www.chicomariofeitosa.blogspot.com.br/2010/01/dragas-no-rio-parnaiba.html#comment-form Acesso em 15/04/2014.
Townsend, C.R.; M. Begon & J.L. Harper. 2010. Fundamentos em ecologia. Editora Artmed, São Paulo.
segunda-feira, 16 de junho de 2014
Barragens brasileiras e o mito da energia renovável
Mais um da disciplina Métodos e organização de trabalhos científicos.
Quando se fala na construção de
barragens nos grandes rios para geração de energia elétrica, logo nos vem à
mente o grande “fusuê” que foi a instalação do canteiro de obras de Belo Monte,
no Pará. Sem nenhuma dúvida, esse empreendimento trouxe a proposta mais
confusa e descabida para desafogar o
setor energético brasileiro.
Como se não bastasse, outras tantas
monstruosidades estão sendo propostas no Norte e Nordeste do país. As
corredeiras do Teles Pires, por exemplo, (um dos principais afluentes do
grandioso rio Tapajós) já estão na mira do governo que não está se preocupando
muito com tudo que o cerca: a caça e a pesca por povos nativos e principalmente
a mudança que a construção de uma grande obra trará (para pior) na região.
Esses dois casos que citei funcionam
somente como o início do problema, infelizmente. Eles demonstram a fragilidade
que o povo brasileiro tem (através dos seus representantes) quanto à decisões
importantes e que mexe com a vida de milhares (talvez milhões) de pessoas. Por
isso, empreendimentos sem retorno, como a hidrelétrica de Balbina, no Estado do
Amazonas, continuam a ser pensadas diunturnamente.
Então passemos para o Nordeste. O grande
lance aqui é o rio Parnaíba, com seus 1.400km de extensão das nascentes ao seu
maravilhoso delta. Não é um grande rio comparado com tantos outros, mas é
imponente e com uma vazão interessante para a geração de energia hidroelétrica.
Talvez seja por isso que bem no início desse século o governo planejou fazer
nele cinco usinas. Uma cascata de barramentos seria providenciada o quanto
antes para somar com a já existente e que ainda nem foi terminada (construída na década de 60).
Lembrando que a água tem um caráter
renovável, duvido muito que tais empreendimentos sejam renováveis. Sim, pois se
alteramos a dinâmica natural desse ecossistema que tem como principal
substância a água, não sei (ninguém sabe) até quando essa proposta
governamental é viável, econômica e ambientalmente.
Talvez outras maneiras de geração da
energia elétrica sejam mais interessantes: não é difícil perceber que as
regiões Norte e Nordeste estão localizadas bem na linha do Equador, onde
sabidamente incidem a maior quantidade de radiação solar. Então, se gastam rios
de dinheiro para construir uma hidrelétrica: porquê não investir parte desse
montante em equipamentos para captação da energia solar?
Outra maneira interessante e que
timidamente vem ganhando espaço no litoral nordestino é aproveitando a energia
dos ventos. Em inúmeros municípios potiguares, por exemplo, empresas estão se
instalando para fabricar e comercializar aqueles “grandes cataventos”. Por
isso, penso que muito em breve outras maneiras de gerar energia, como essa,
ganharão espaço e serão amplamente utilizadas para o dia-a-dia do brasileiro.
A partir desse
cenário, enxergo que a cultura das hidrelétricas no Brasil pode estar com os
dias contados, ao passo que outros mecanismos ganhariam espaço no mercado,
barateando produtos pela leal concorrência. Se lembrarmos o quanto já foi caro
possuir uma placa fotovoltaica, poderemos vislumbrar um futuro bastante
promissor e que, sem dúvida, nos demandará muitas indas e vindas através das
nossas experiências. Sou mais um do time que torce e trabalha por mudanças de
atitudes que nos façam ter dias melhores enquanto estivermos por aqui pela Terra.
Em 15/04/2014
terça-feira, 3 de junho de 2014
Sweet invasion
Desde quando nos tornamos cosmopolitas,
temos o hábito de levar e trazer coisas as quais precisamos. Dentre elas,
plantas e animais têm presença marcante, pois de alguma maneira nos são úteis. Não
é por nada que existem hoje algumas plantas amplamente utilizadas na agricultura
e animais domesticados, que carinhosamente chamamos de “pets”, além de outros
que compõe a base alimentar de muitas culturas.
Não pretendo fazer aqui um levantamento
histórico de como se deu a distribuição de algumas plantas e animais através
das mãos do homem; até porque isso se confundiria com a maneira complexa na
qual o próprio homem chegou aos quatro cantos do mundo. Entretanto gostaria de
ressaltar alguns problemas ecológicos locais, originados do descuidado do homem
com o seu ambiente quanto à introdução de espécies. Em suma, espécies exóticas
podem não ser adaptadas ao novo local (sendo eliminadas a curto-médio prazo) ou,
de alguma forma, influenciam na dinâmica natural.
Chamo atenção para um problema que pode
ser muito grave e que envolve uma espécie de peixe amazônico. O tucunaré (Cichla sp.) foi há muito tempo
introduzido no Nordeste brasileiro, talvez pela prática da piscicultura, e pode
em médio-longo prazo desestruturar toda a comunidade de peixes de uma dada
localidade.
Tomemos o rio Parnaíba como exemplo. Lá,
essa espécie parece ter encontrado um hábitat perfeito para a manutenção de sua
população. Rio acima, mais precisamente na barragem de Boa Esperança, o lago
parece funcionar como berçário para o tucunaré. Não é de se admirar, pois essa
espécie tem hábitos lênticos (ou seja, prefere ambientes de água parada);
entretanto, em locais à jusante ele pode ser encontrado, embora com uma
abundância muito menor que na barragem.
A pergunta que não quer calar sobre esse
bicho é como ele pode alterar a comunidade biótica no rio como um todo. Me
preocupo muito com isso pois o tucunaré é um voraz devorador de outros peixes
(se for menor e ele puder engolir, tá morto!). Uma prova disso foi o que
aconteceu no Lago Gatún (Panamá) onde ele também foi introduzido: pouco tempo depois
não existia nem se quer o próprio tucunaré.
Outro exemplo emblemático aconteceu no
Lago Vitória (África), com um parente próximo do tucunaré. A Perca-do-Nilo (Lates niloticus) dizimou uma das faunas
de peixes de água doce mais ricas e exuberantes do mundo, tudo por culpa da
brilhante ideia de alguém que tinha a intensão de aumentar o produto da pesca
no lago. Genial, pois a carne do bicho nem é tão apreciada pelos habitantes
locais... Além disso muita lenha era utilizada como matriz energética para
defumar a carne da perca, pois a mesma é bastante oleosa e só através desse
processo sua conservação poderia ser efetivada.
Voltando ao rio Parnaíba, pelo menos
mais quatro espécies de peixe (sem contar com o tucunaré) são consideradas
exóticas, sendo duas originárias da Amazônia, uma da África e outra da bacia do
Paraguai-Paraná. Pensando na biologia trófica e reprodutiva delas, talvez, para
um leigo, não significasse grandes problemas para os peixes nativos e demais
componentes ambientais do Parnaíba. Entretanto, ninguém ainda garante que a
dinâmica desse ambiente não será profundamente alterada pelo conjunto de
impactos causado pela entrada dessas “coisas estranhas”.
Dessa forma, uma minucionsa investigação
no rio Parnaíba deve ser iniciada para que sejam encontradas medidas
mitigadoras para esse problema que doravante se apresenta. Podemos evitar com
isso que inúmeras pessoas que dependem do produto da sua pesca percam a sua
principal fonte de renda e de proteína animal.
em 26/03/2014
segunda-feira, 2 de junho de 2014
Piaus do rio Tapajós
Eis que minha dissertação de mestrado virou livro!
http://www.bookdepository.com/Peixes-Anostomideos-Do-Rio-Tapajos-Feitosa-Francimario/9783639615647
Na mosca?
Parece que mais notícias sobre “seca”
continuarão a ser veiculadas, penso eu que de maneira infinita. O problema que
hoje os paulistanos sofrem com o Sistema Cantareira – no abastecimento de água
– me lembra de maneira muito forte o quanto a política é podre no Brasil. E hoje,
após fazer minha leitura diária de notícias, tive mais certeza de que o “buraco
é muito mais embaixo” e que esse problema só reflete um estado de coisas
acontecendo.
Muitos são os pontos de vistas, diversos
especialistas foram ouvidos, mas numa coisa todos concordam: problemas como
esse podem respingar no próximo pleito eleitoral. E a coisa mais engraçada?
Temos problema no abastecimento d’água, que no caso de São Paulo é de
responsabilidade de um grupo político, e no fornecimento de energia elétrica,
de responsabilidade de outro grupo, que por acaso é oposição daquele.
O que vai acontecer então? Diriam os
“políticos” mais radicais e recalcados que tudo isso vai dar em pizza. Mais,
penso eu, que o circo vai pegar fogo e já consigo até imaginar o picadeiro em
brasas: de um lado, imagens de um governante sendo molhado com água suja de uma
recente obra e do outro os raios de uma “deusa do tempo” caindo sobre as redes
de transmissão e causando apagões de um dia inteiro. É, talvez pense em cobrar
direitos autorais de publicidade.
Parece que não vai chover... E pensar
que isso era uma preocupação frequente de nordestinos. Sim, daqueles que
plantam anualmente uma pequena rocinha de arroz, feijão e milho, para suprir as
necessidades básicas de suas famílias. Gozado não? Será que algo será feito
para resolver o problema que ora São Paulo enfrenta?
Especialistas ouvidos por um determinado
jornal (http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2014/03/1421898-para-especialistas-sp-ja-deveria-adotar-racionamento-leve.shtml) sugerem um
“racionamento leve” e que o remanejamento de água de outros reservatórios é
insustentável a longo prazo. Pensar num “plano b” nesse caso me faz pensar o
quanto ainda somos incapazes de resolver problemas práticos do dia-a-dia de
maneira mais holística.
Através de uma pequena pesquisa para
esse caso consegui enxergar o gigantesco gasto de tempo e dinheiro que se tem
com o empréstimo de água dos sistemas Alto Tietê e Guarapiranga. Assim, uma
pergunta não me quer calar: onde e como serão buscadas alternativas para mais de
10 milhões de habitantes caso o sistema entrar em colapso?
O fato de que toda essa estratégia
montada pelo governo seja talvez a única alternativa viável para o momento,
pode soar para alguns leitores, um erro de análise de minha parte. Para estes,
lembro que outras alternativas a longo prazo podem ser viáveis mesmo sendo São
Paulo uma selva de pedras. Uma cidade que não preza, por exemplo, pelo
tratamento do esgoto por ela produzido não pode pensar em alternativas que
somente “suguem” os recursos naturais.
Uma resolução para o problema passaria
necessariamente pela recuperação de ambientes que antigamente eram fornecedores
de água e que ainda não se encontram sob o solo impermeabilizado da selva de
pedra. Outro ponto seria dar uma destinação adequada para o esgoto produzido e
não somente lança-los no córrego mais próximo, transformando-o em esgoto (ou
seja, mais um problema a ser resolvido). Por último, e penso eu mais que
importante, que seja de fato implementada uma educação que tenha por meta a
resolução de problemas de uma forma mais humana.
em 07/03/2014
sexta-feira, 30 de maio de 2014
Cantiga da Cantareira Nordestina
Depois de muito tempo sem postar notícias e/ou reflexões, estou de volta. Dessa vez, vou publicar, na íntegra, uma série de artigos redigidos originalmente para a disciplina "Métodos e organização de trabalhos científicos", ministrada pelo Profº Rogério Parentoni no Programa de Pós Graduação em Ecologia e Recursos Naturais da UFC, campus Pici. Ele nos propôs, para que melhorássemos nossa escrita, que escrevêssemos semanalmente artigos curtos, de no máximo 45 linhas, sobre temas relacionados à ecologia. Era pra ser um treino, mas levei a coisa a sério e saiu pelo menos mais três além desse que segue abaixo. Os demais serão paulatinamente publicados.
Em fevereiro de 2010, corria a notícia
num desses sites regionais do sul do
Piauí que a seca era avassaladora no semiárido nordestino. À época, estudava
mestrado no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, em Manaus-AM, e
recorria sempre às tais páginas na internet para saber notícias de minha
cidade. Vendo tal notícia, veio de
súbito perguntas que acho que nunca vão calar, como por exemplo: até quando continuarei
vendo notícias similares? Quem tem interesse que notícias sobre a seca
continuem a ser veiculadas? Existem pessoas tão desumanas a ponto de não quererem
resolver politicamente tal problemática?
Por isso, resolvi escrever uma pequena
nota num blogue que mantenho desde quando me mudei pra Amazônia (www.chicomariofeitosa.blogspot.com),
sob o título “Que seca?”, questionando o poder político sobre a problemática e
o quão natural esse fenômeno é. O principal motivo daquela postagem era deixar
claro a minha indignação sobre tudo que cerca o tema, além de também deixar
registrado que mais notícias sobre a seca no Nordeste seriam veiculadas ano
após ano.
O fato é que a “seca” é um evento
natural que ocorre não só no Nordeste brasileiro, mas em muitas outras regiões
pelo planeta afora. É uma condição que remete à características do ambiente e
basicamente se trata da insuficiência de precipitação pluviométrica numa região
(chuva), seguida de um déficit hídrico, ou seja, um balanço negativo entre a
entrada de água e a sua perda por processos naturais, como a evaporação causada
pela insolação.
Abrindo um parêntese sobre o conceito de
seca, proponho o seguinte teste: digite no google
a palavra “seca” e faça a mesma pesquisa num dicionário formal de português.
Com exceção de uma única citação sobre “lei seca” implantada recentemente no
país, o resto da pesquisa informal indicará uma relação direta entre a palavra
e o fenômeno climático em questão. Formalmente, tem-se como um “ato de pôr a
secar ou enxugar” (Dicionário Priberam).
Situando o fato climático com as notícias,
surpreende-me por exemplo, coisas como as que estão acontecendo no Sistema
Cantareira. São coisas que mais frequentemente acontecem em regiões semiáridas,
como no Nordeste. Mais uma vez pergunto: de quem é a culpa? Dos gestores, da
falta de interesse deles ou da natureza? Já pensou no caos que a Grande São
Paulo pode passar se faltar água pros mais de 10 milhões de habitantes de lá?
Já pensou se não chovesse até o estado caótico de fato se concretizar?
Sim estou falando da região do país que
é mais importante em termos econômicos. É lá que estão concentradas as principais
fábricas de tudo que se consome no país. Pode parecer presunção minha mas,
mesmo antes desse problema acontecer lá em São Paulo eu já me fazia essa
pergunta. E mais: acho que veria com meus próprios olhos o problema resolvido,
de alguma maneira.
Assim, não estou propondo que para um
eventual “caos” no abastecimento de água em São Paulo, um “artifício antiético”
seja usado para resolver o problema. Mas que, de fato, se encontrem
alternativas sustentáveis para o problema. No meu humilde modo de pensar, o
clima semiárido nordestino é perfeito para testes de como convivermos bem
nessas condições. Já viram exemplos como nos desertos de Israel? É, na minha
opinião, um dos exemplos a serem seguidos por quem quer realmente resolver o
problema da “seca” no Nordeste brasileiro.
As ciências que
tratam de coisas particulares como por exemplo a biologia, física, geologia e meteorologia
podem ajudar muito no processo de melhoria da convivência em climas semiáridos.
Só falta mesmo que os representantes sintam-se envergonhados de continuarem a
serem assim por pura e simples falta de competência. Sei que pode soar um tanto
quanto utópico, mas talvez assim os tomadores de decisão comecem a pensar no
próximo. Não quero pensar que, pra isso acontecer, devemos passar por um
eminente e desastroso caos.
Assinar:
Postagens (Atom)




